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Aprovado projeto que muda regras de aplicação de agrotóxico em MT

Aprovado projeto que muda regras de aplicação de agrotóxico em MTProposta segue para sanção ou veto do governador Mauro Mendes. Foto: Fablicio Rodrigues/ ALMT

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Por André Garcia

A Assembleia Legislativa de Mato Grosso (ALMT) aprovou, nesta quarta-feira, 19/3, o Projeto de Lei 1.833/2023, que reduz o limite de distanciamento para aplicação de agrotóxicos de 300 para 90 metros em relação às cidades, vilarejos, mananciais de captação de água, nascentes e moradias de animais.

Conhecido como PL do Veneno, o texto derruba esta distância para 25 metros em propriedades médias, que possuem entre quatro e 25 módulos fiscais. Para as pequenas propriedades, não se prevê qualquer restrição de distância.  Agora a proposta segue para sanção ou veto do governador Mauro Mendes.

Enquanto sindicatos rurais, produtores e entidades do agronegócio celebram a aprovação, afirmando que a redução do limite é necessária para garantir a viabilidade da produção agrícola e pecuária no Estado, especialistas alertam sobre os riscos que a mudança traz para a população.

Professora do Núcleo de Estudos Ambientais e em Saúde do Trabalhador da Universidade Federal de Mato Grosso (Neast-UFMT), Marcia Montanari alerta que os impactos da medida não são restritos a quem se alimenta ou trabalha nas proximidades de lavouras e propriedades rurais.

“É só a gente olhar na bula do produto, toxicidade aguda, toxicidade crônica e, também, a toxicidade ambiental. A dispersão dos agrotóxicos acontece de diferentes formas, pode se dar por meio da chuva, pela própria absorção do solo e da contaminação dos lençóis freáticos, chegando de diferentes maneiras para exposição à população”, explicou.

Só em 2023, foram aplicados 170 milhões de litros de agrotóxicos nas lavouras mato-grossenses, sendo os mais utilizados o glifosato, o mancozeb, o acefato, o clorotalonil, o 2,4-d, a atrazina e a malationa. O contato com os produtos a longo prazo está associado a doenças como o câncer e à malformação de fetos.

“Mato Grosso é o estado que mais utiliza agrotóxicos no Brasil e diversos estudos já comprovaram os danos à saúde da população por conta disso. Quanto menor a distância dos locais de aplicação, maior o risco de adoecimento. É um problema de saúde pública e reduzir este limite vai expor a população, principalmente a do interior.”

Mudança ameaça a própria agricultura

O vice-presidente da região sul da Associação dos Produtores de Soja e Milho (Aprosoja-MT), Fernando Ferri, aponta que a redução na área é essencial e vital para a agricultura mato-grossense e que uma eventual restrição causaria perdas de produção e uma oferta menor de grãos no mercado consumidor.

Contudo, o biólogo Lucas Ferrante explica que a proximidade das áreas de pulverização com matas, nascentes e propriedades vizinhas compromete a biodiversidade que ajuda no controle natural de pragas, tornando as lavouras mais vulneráveis e aumentando a dependência de venenos.

Além disso, o desequilíbrio ambiental pode favorecer o surgimento de pragas resistentes, exigindo o uso de defensivos cada vez mais potentes e caros. Outro risco é a contaminação cruzada entre diferentes culturas, o que pode causar danos a plantações vizinhas e comprometer certificações, principalmente da agricultura orgânica.

“Os deputados têm responsabilidade sobre os danos ambientais, para a agricultura e saúde pública. Existe responsabilidade na liberação da contaminação massiva desse veneno”, pontuou Ferrante.

Lei abre brecha para irregularidades

Ao mesmo tempo em que o setor produtivo defende que a mudança beneficia principalmente o pequeno agricultor, um dos argumentos usados para justificá-la é que “existem tecnologias e equipamentos de ponta para execução das tarefas”, o que normalmente não faz parte das rotinas de pequenas propriedades.

A Federação da Agricultura de Mato Grosso (Famato), por exemplo, destaca que a manipulação pelos funcionários é feita com Equipamento de Proteção Individual (EPI), tais como luva, macacão e máscara, para não ser contaminado. “Existe uma série de técnicas que minimizam quaisquer riscos de contaminação”, ressalta a instituição.

Por outro lado, o Ministério Público do Trabalho (MPT-MT) e o Ministério Público Federal (MPF-MT) apontam que a alteração abre brechas para violações de direitos fundamentais e direitos trabalhistas, além de piorar o cenário de insuficiência na fiscalização.

 

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