Por André Garcia
Em 2024, diversos eventos climáticos extremos atingiram a América Latina e o Caribe, abalando cadeias de abastecimento alimentar, segundo relatório da Organização Meteorológica Mundial (OMM). No Brasil, o documento destaca as enchentes no Rio Grande do Sul, a seca na Amazônia e a onda de calor que atingiu diversas partes do País.
Como já mostramos, a bacia amazônica enfrentou uma das secas mais severas da história, afetando mais de 745 mil pessoas até setembro. Desde abril, as chuvas ficaram entre 30% e 40% abaixo da média. Em julho, o estado do Amazonas bateu recorde de focos de incêndio e registrou uma drástica redução no nível dos rios.
No Pantanal, que viveu a pior estiagem dos últimos 70 anos, a combinação entre baixa umidade, calor extremo e vegetação seca intensificou os incêndios florestais. Entre o fim de agosto e a primeira semana de setembro, partes do Centro-Oeste foram atingidas por ondas de calor, com temperaturas até 7 °C acima da média.
“Embora o pico da temporada de incêndios geralmente ocorra em agosto e setembro, junho de 2024 foi excepcional, com cerca de 423 mil hectares queimados — uma área substancialmente maior que o recorde anterior para o mês, registrado em junho de 2020, com 26.725 hectares, e muito acima da média mensal, de aproximadamente 8.300 hectares”, diz trecho da publicação.
O levantamento também chama atenção para as ondas de calor que se espalharam pela América Latina. Em diversas regiões do Brasil, as temperaturas ultrapassaram os 41 °C. A maior foi registrada em Cuiabá, que alcançou 42,2 °C, superando recordes anteriores.
Enchentes no RS
A OMM aponta que as enchentes provocadas por chuvas intensas no Rio Grande do Sul foram o pior desastre climático do Brasil: mais de 90% do estado foi afetado e mais de 180 pessoas morreram, evidenciando a necessidade de melhorar a compreensão dos riscos de desastres entre autoridades e população.
Segundo o relatório, as perdas econômicas no setor agrícola foram estimadas em R$ 8,5 bilhões. A soja foi a cultura mais impactada, representando entre 15% e 16% da área cultivada no estado. Na pecuária, os prejuízos somaram R$ 1,2 bilhão, com 600 mil hectares de pastagens gravemente danificados.
As inundações também afetaram severamente o setor pesqueiro gaúcho. O volume excepcional de chuvas elevou os níveis de rios e lagoas, como a Lagoa dos Patos — responsável por 30% do camarão-rosa produzido no país. A produção foi interrompida e o abastecimento do produto foi impactado em todo o Brasil.
Agricultura e segurança alimentar
Ao longo de 2024, os fenômenos meteorológicos extremos, somados às crises econômicas, conflitos e insegurança, foram os principais agravantes da insegurança alimentar aguda na região, onde as condições continuaram críticas. Em 2023, 197 milhões de pessoas em nove países enfrentaram altos níveis de insegurança alimentar.
Isso porque o setor mais impactado por esses eventos é o agronegócio. Nesse contexto, o relatório reforça que é essencial implementar estratégias de resiliência agrícola, adotar medidas antecipatórias, fortalecer os sistemas alimentares e priorizar ações de mitigação para enfrentar as mudanças climáticas.
“O aprimoramento dos serviços climáticos pode aumentar a produtividade agrícola, contribuir para a segurança alimentar e fortalecer os sistemas energéticos diante de perturbações. Ao enfrentar essas deficiências críticas, a América Latina e o Caribe podem se tornar polos de inovação, impulsionar o crescimento e garantir um futuro resiliente.”
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