Por André Garcia
Períodos de cheias cada vez menores e secas cada vez mais prolongadas que favorecem incêndios mais intensos: esta é a nova realidade do Pantanal. Segundo dados divulgados pelo MapBiomas nesta terça-feira 12/11, em que se celebra o Dia do Pantanal, em 2023 a redução de água foi de 61% em relação à média registrada nos últimos 38 anos.
Com 3,3 milhões de hectares de área alagada em 2023, o bioma está 38% mais seco que 2018, quando ocorreu sua última grande cheia, que cobriu 5,4 milhões de hectares. Essa extensão, entretanto, já era 22% mais seca que a de 1988, primeira grande cheia de uma série histórica iniciada em 1985, que cobriu 6,8 milhões de hectares.
As áreas alagadas por mais de três meses no ano também apresentam tendência de redução, isto é, o bioma tem apresentado uma menor área alagada ao mesmo tempo que o alagamento apresenta menor tempo de permanência. Paralelamente, 22% dos 2,3 milhões de hectares da atual área de savana vieram de locais que secaram.
Não à toa, o Pantanal vem quebrando recordes consecutivos de queimadas. De acordo com o levantamento, após a cheia de 2018, nota-se uma recorrência de incêndios florestais especialmente no entorno do Rio Paraguai.
Essas mudanças foram descritas recentemente pelo geógrafo e pesquisador do Instituto Gaia Pantanal, Clóvis Vailant. Ele, que atuou no combate aos incêndios florestais que se espalharam pelo bioma neste ano, concedeu entrevista ao Gigante 163 em julho, quando destacou os desafios no enfrentamento às chamas.
“Estamos em um momento complexo de mudanças climáticas e transição de El Niño para La Niña, o que traz um novo comportamento do clima e um ambiente muito diferente, com nascentes diferentes das que se tinha na década de 60, quando houve uma seca parecida”, disse à época.
Segundo o MapBiomas, de 2019 a 2023, o fogo atingiu locais que até 1990 eram permanentemente alagados. O total queimado de 2019 a 2023 foi de 5,8 milhões de hectares e as regiões mais atingidas foram justamente as que antes eram permanentemente alagadas no entorno do Rio Paraguai.
“Tivemos problemas com aceiros por conta dos ventos que estão atípicos e jogam a brasa a muitos metros de distância. Neste ano, vimos o fogo pular no Rio Paraguai. Labaredas absurdas criaram redemoinhos de fogo que foram lançados para o outro lado do rio, a cerca de 80 metros”, contou Clóvis.
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