Por André Garcia
O clima, aliado à alta da taxa de juros e ao aumento dos custos de produção agrícola, impulsionou uma alta de 138% nos pedidos de recuperação judicial no agronegócio em 2024. Segundo relatório do Serasa Experian, no ano passado o setor registrou 1.272 solicitações oriundas de produtores rurais que atuam como pessoa física, como pessoa jurídica e empresas ligadas à atividade. Em 2023, o total foi de 534.
Como temos mostrado, a frequência e intensidade dos eventos extremos — como secas prolongadas, excesso de chuvas e alterações nos ciclos produtivos — têm comprometido safras inteiras, dificultando o cumprimento de contratos e o pagamento de dívidas.
Tanto entre os produtores que atuam como pessoa física quanto entre os que atuam como pessoa jurídica, os pedidos de recuperação se concentraram na região Centro-Oeste. Mato Grosso e Goiás lideram a lista, com 265 e 182 processos, respectivamente. Na quarta colocação está Mato Grosso do Sul, com 92.
“A alta da taxa de juros, aliada ao aumento dos custos de produção com insumos agrícolas — que ficaram mais caros devido à inflação e à desvalorização cambial —, foram alguns dos principais desafios e, para além disso, tivemos o agravante das adversidades climáticas”, explicou o representante da Serasa Experian, Marcelo Pimenta.
Cenário afetou diferentes perfis
Os dados mostram que a crise atingiu diferentes perfis de produtores, independentemente do porte ou da posse da terra. Entre os produtores pessoa física, 224 pedidos foram feitos por indivíduos sem propriedades no campo, como arrendatários ou integrantes de grupos familiares. Grandes proprietários responderam por 132 solicitações, pequenos por 113 e médios por 97.
Já no grupo de pessoas jurídicas, o cultivo de soja liderou os pedidos de recuperação judicial, com 222 casos. Em seguida, aparecem a criação de bovinos (75), o cultivo de cereais (49), de café (16) e de algodão e outras fibras (10). Já as empresas ligadas ao agro somaram 297 solicitações em 2024, frente a 245 no ano anterior.
Empresas do agro
De acordo com o levantamento, as empresas que atuam de forma relacionada ao setor do agronegócio realizaram 297 pedidos de recuperação judicial em 2024. As informações de 2023 mostram aumento no comparativo, já que o ano tinha marcado 245 solicitações.
As “Agroindústrias de Transformação Primária” concentraram o maior número de pedidos (73). Em seguida, os “Serviços de Apoio à Agropecuária” marcaram 64 pedidos. As “Indústrias de Processamento de Agroderivados” realizaram 58 requisições, o “Comércio Atacadista de Produtos Agropecuários Primários”, 33, e os “Revendedores de Insumos Agropecuários (exceto máquinas)” representaram 32 solicitações.
Inadimplência
Um estudo bancado pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), que simulou os efeitos futuros da mudança climática sobre as finanças do agronegócio no Brasil, projeta que a instabilidade climática resultará em aumento da inadimplência no agronegócio ao longo das próximas décadas.
Diante disso, a melhor forma de os produtores conseguirem mais resiliência, dizem os pesquisadores, é uma reforma dos serviços financeiros e o fortalecimento de instituições de resseguros. Outro ponto crucial é se antecipar a problemas de acesso à água, um insumo vital para a agropecuária que deve sofrer grande impacto com a mudança climática.
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