Por André Garcia
Recentemente, o Boston Consulting Group (BCG) mostrou como a agricultura regenerativa pode gerar até US$ 100 bilhões no Cerrado brasileiro. A estratégia, que alia alto desempenho e redução de custos, vem garantindo produtividade até dez vezes maior ao pecuarista Luis Fernando Laranja, que há mais de uma década investe no modelo.
Há cinco anos, ele iniciou a produção de gado de corte em quatro fazendas localizadas em Mato Grosso, Tocantins e Bahia. Por meio de sua empresa, a Caaporã Agropecuária, Laranja arrenda propriedades com pastagens improdutivas e faz a conversão para sistemas regenerativos de alta eficiência.
“Hoje temos quatro fazendas sob 16 mil hectares. São mais de 6 mil hectares de sistema silvipastoril implantados, focando sempre na pecuária de baixas emissões de carbono”, explicou ao Gigante 163, destacando que o trabalho é baseado na intensificação sustentável e na pecuária de baixas emissões.
De acordo com o produtor, a diferença nos indicadores é expressiva: em pastagens degradadas, a lotação média é de 0,8 a 1 cabeça por hectare, com ganho de peso diário de 250 gramas. “Após a conversão, esses números sobem para 2,5 a 3 cabeças por hectare, com ganho médio de 750 gramas por dia”, acrescentou.
A estratégia
Os pesquisadores da BCG consideraram três modelos de transição produtiva, chamados por eles de arquétipos: recuperação de pastagens degradadas, conversão de pastagens em lavouras regenerativas e transição de lavouras convencionais para regenerativas. A conversão da área em lavoura regenerativa oferece os melhores resultados.
Neste caso, segundo o estudo, a renda do produtor pode subir 6,8 vezes em cinco anos e até 12,9 vezes no longo prazo. É justamente essa a estratégia adotada por Laranja, que garante a infraestrutura adequada, a suplementação nutricional, a rotação de pastagens e a adoção do sistema silvipastoril nas propriedades.
“Assumimos fazendas degradadas sem investimento prévio, com baixa produtividade. Depois da conversão, conseguimos multiplicar os resultados por seis ou até dez vezes, o que mostra a viabilidade do modelo intensivo com base regenerativa. É uma mudança radical”, afirmou.
Outro diferencial do modelo é o uso mais racional dos insumos. Segundo ele, além do ganho ambiental, há economia direta com fertilizantes, suplementos e medicamentos. “No caso específico da pecuária, não tenho dúvida que a redução no uso de insumos gera um negócio mais rentável.”
Retorno
A transição exige investimento inicial, o que ainda é uma barreira para muitos produtores, já que os custos da conversão variam entre R$ 4 mil e R$ 10 mil por hectare, dependendo da estrutura da fazenda. Para Laranja, esse processo pode ser acelerado por linhas de crédito com prazos mais longos e carência adequada.
“Esse sistema começa a gerar retorno dentro de um ano após implantado. A partir do segundo ano, a rentabilidade vai para outro patamar e o modelo começa a se pagar. A partir do quarto ou quinto ano, o retorno já é positivo. É isso que a Caaporã faz com arrendamento de longo prazo”, ressaltou.
Mercado mais exigente, agro mais competitivo
Laranja lembra que a União Europeia , por exemplo, já impõe critérios ambientais rigorosos para a importação de carne, soja e outros produtos. E esse movimento tende a se expandir para países como China, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos, que também começam a exigir rastreabilidade e sustentabilidade.
“Muitos produtores ainda veem esse posicionamento da Europa como um fato isolado, de um grupo de países muito rígido na agenda ambiental, que ainda não representa volume de comércio relevante com o Brasil. Eu discordo, porque o mercado europeu é o primeiro a subir a barra dos critérios ambientais.”
Neste cenário, os produtores que investirem agora em práticas regenerativas terão vantagem competitiva nos próximos anos, seja pela priorização de seus produtos na hora da venda ou pelo bônus de preço atribuído aos produtos de origem sustentável.
“Estou convencido de que outros mercados vão seguir esses critérios. O mercado chinês passará a ser mais seletivo na compra dos produtos, da mesma maneira que os árabes e os outros países. Portanto, quem tiver modelos sustentáveis vai lucrar ou com o sobrepreço do produto ou pela preferência na venda”, concluiu.
LEIA MAIS:
União Europeia confirma adiamento da lei antidesmatamento
Cerrado pode dobrar produção com agricultura regenerativa
Agricultura regenerativa pode triplicar lucro em fazendas de MT
Produção de soja regenerativa tem bom resultado
Agricultura regenerativa é o caminho para o agro combater clima hostil
Agricultura regenerativa garantirá ‘prêmio’ a produtores de soja
JBS vai investir R$ 10,2 mi em pecuária regenerativa na Amazônia
Fazendas recebem certificação ligada à agricultura regenerativa
Agropecuária regenerativa é o grande desafio do Brasil, diz Nobre
Saúde do solo é o foco da agricultura regenerativa
Saiba mais sobre agricultura regenerativa
Mais uma vez clima castiga produtores na colheita de soja de MT
Documento aponta 12 medidas para erradicar desmatamento no Brasil